{"id":2187,"date":"2024-03-13T00:30:39","date_gmt":"2024-03-13T00:30:39","guid":{"rendered":"https:\/\/xanasousa.com\/blog\/?p=2187"},"modified":"2025-04-14T20:34:08","modified_gmt":"2025-04-14T20:34:08","slug":"uma-casa-nao-e-uma-casa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/xanasousa.com\/blog\/2024\/03\/13\/uma-casa-nao-e-uma-casa\/palanque\/","title":{"rendered":"Uma Casa N\u00e3o \u00c9 Uma Casa"},"content":{"rendered":"\n<div class=\"wp-block-columns\">\n<div class=\"wp-block-column\"><\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-columns\">\n<div class=\"wp-block-column\" style=\"flex-basis:50%\">\n<p>Um ninho e uma casa equivalem-se. N\u00e3o \u00e9 por isso que deixa de ser perigoso metaforizar, do humano para o animal ou no sentido contr\u00e1rio. A met\u00e1fora simplifica e atrai o sentimentalismo, a n\u00e9mesis do esteta. Deixai ent\u00e3o a presun\u00e7\u00e3o, \u00f3 v\u00f3s que entrais. H\u00e1 mais que ver.<\/p>\n\n\n\n<p>A mem\u00f3ria faz o ninho como quem faz uma casa. H\u00e1 um instinto para construir a partir do passado, de erguer sobre bases est\u00e1veis. Somos n\u00f3s que atribu\u00edmos ao passado uma ideia de estabilidade que este nunca teve. H\u00e1 um passado do qual nada sabemos, como naquele prov\u00e9rbio ap\u00f3crifo que diz, \u201cNa R\u00fassia o passado \u00e9 sempre imprevis\u00edvel\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Constr\u00f3i-se no entanto uma casa como que por instinto, como fazem algumas aves que escavam no ch\u00e3o um lugar seguro para os seus. Pode tamb\u00e9m edificar-se por oposi\u00e7\u00e3o, para reagir ao passado, mas n\u00e3o devemos ocupar-nos com esse aspecto. \u00c9 mesmo de construir que aqui se vai tratar, a constru\u00e7\u00e3o como arte de acreditar no futuro.<\/p>\n\n\n\n<p>Pode construir-se por capricho, que bela coisa! Sem preocupa\u00e7\u00e3o com a posteridade, apenas com a dura\u00e7\u00e3o natural do material. Usar papel que amarelece ou renda que acaba por desfazer-se \u00e9 muito semelhante. Tudo dura apenas aquilo que deve durar e tamb\u00e9m isso \u00e9 um futuro, embora pare\u00e7a apenas um acidente \u00e0 espera de acontecer. Mas a verdade \u00e9 que no fim tudo se desfaz.<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 um ninho se desfaz, seja por acidente ou agress\u00e3o, tamb\u00e9m por falta de utilidade, por se terem esgotado os seus benef\u00edcios. Como aves que se v\u00eaem for\u00e7adas a mudar de territ\u00f3rio, empurradas pelo clima que muda, h\u00e1 semelhantes ventos que deslocam, de forma natural, aqueles que vieram antes de n\u00f3s.<\/p>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-column\"><\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-column\" style=\"flex-basis:50%\">\n<p>Deixam vest\u00edgios, que podemos aprender a reproduzir de mem\u00f3ria, casas que recordaremos sempre como eram, onde podemos errar de olhos fechados sem temor, pal\u00e1cios da mem\u00f3ria dos quais por vezes emergimos com alguma curiosidade digna de se mostrar, talvez um truque, uma habilidade da m\u00e3o como, por exemplo, dobrar papel. <\/p>\n\n\n\n<p>Apresentam-se os modelos que se copiou e de onde se aprendeu. Presta-se-lhes rever\u00eancia, s\u00e3o rel\u00edquias, como se diz dos dedos mirrados dos santos. S\u00e3o provas de que esse outro mundo realmente existiu. Sustentam-se da mem\u00f3ria, como as cren\u00e7as, e tanta que se guarda nos dedos, de aprender por ver fazer. Os olhos e os dedos s\u00e3o as primeiras ferramentas da mem\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 nosso, \u00e9 patrim\u00f3nio. Ensina-se. J\u00e1 vi a Xana Sousa faz\u00ea-lo. Pega-se assim e dobra-se assado. \u00c9 uma arte de transmiss\u00e3o, uma comunica\u00e7\u00e3o. \u00c9, nesse sentido, uma prova de que o futuro deve existir. Para qu\u00ea guardar seja o que for se o futuro n\u00e3o existir, uma coisa que possa transmitir-se? A pr\u00f3pria ideia de transmiss\u00e3o implica a ideia inerente de que algures existir\u00e1 um receptor.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse receptor \u00e9 o futuro, que n\u00e3o existe ainda mas vir\u00e1. \u00c9 religioso apenas na acep\u00e7\u00e3o em que volta a ligar, re\u00fane. Cura, claro. \u00c9 antes de mais uma arte da cura, uma habilidade da m\u00e3o. Parece magia, como a arte tamb\u00e9m deve parecer. \u00c9, no fundo, um ninho constru\u00eddo a partir de mat\u00e9rias delicadas e ao qual somos todos bem vindos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><\/p>\n\n\n\n<pre class=\"wp-block-verse has-text-align-right\"><em>Texto de <a href=\"https:\/\/www.quetzaleditores.pt\/autor\/rodrigo-magalhaes\/3021691\">Rodrigo Magalh\u00e3es<\/a><\/em>\n<em>Exposi\u00e7\u00e3o Palanque na Galeria A Montra, 2024<\/em><\/pre>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um ninho e uma casa equivalem-se. N\u00e3o \u00e9 por isso que deixa de ser perigoso metaforizar, do humano para o animal ou no sentido contr\u00e1rio. A met\u00e1fora simplifica e atrai o sentimentalismo, a n\u00e9mesis do esteta. Deixai ent\u00e3o a presun\u00e7\u00e3o, \u00f3 v\u00f3s que entrais. H\u00e1 mais que ver. A mem\u00f3ria faz o ninho como quem faz uma casa. H\u00e1 um instinto para construir a partir do passado, de erguer sobre bases est\u00e1veis. Somos n\u00f3s que atribu\u00edmos ao passado uma ideia de estabilidade que este nunca teve. H\u00e1 um passado do qual nada sabemos, como naquele prov\u00e9rbio ap\u00f3crifo que diz, \u201cNa R\u00fassia o passado \u00e9 sempre imprevis\u00edvel\u201d. Constr\u00f3i-se no entanto uma casa como que por instinto, como fazem algumas aves que escavam no ch\u00e3o um lugar seguro para os seus. Pode tamb\u00e9m edificar-se por oposi\u00e7\u00e3o, para reagir ao passado, mas n\u00e3o devemos ocupar-nos com esse aspecto. \u00c9 mesmo de construir que aqui se vai tratar, a constru\u00e7\u00e3o como arte de acreditar no futuro. Pode construir-se por capricho, que bela coisa! Sem preocupa\u00e7\u00e3o com a posteridade, apenas com a dura\u00e7\u00e3o natural do material. Usar papel que amarelece ou renda que acaba por desfazer-se \u00e9 muito semelhante. Tudo dura apenas aquilo que deve durar e tamb\u00e9m isso \u00e9 um futuro, embora pare\u00e7a apenas um acidente \u00e0 espera de acontecer. Mas a verdade \u00e9 que no fim tudo se desfaz. At\u00e9 um ninho se desfaz, seja por acidente ou agress\u00e3o, tamb\u00e9m por falta de utilidade, por se terem esgotado os seus benef\u00edcios. Como aves que se v\u00eaem for\u00e7adas a mudar de territ\u00f3rio, empurradas pelo clima que muda, h\u00e1 semelhantes ventos que deslocam, de forma natural, aqueles que vieram antes de n\u00f3s. Deixam vest\u00edgios, que podemos aprender a reproduzir de mem\u00f3ria, casas que recordaremos sempre como eram, onde podemos errar de olhos fechados sem temor, pal\u00e1cios da mem\u00f3ria dos quais por vezes emergimos com alguma curiosidade digna de se mostrar, talvez um truque, uma habilidade da m\u00e3o como, por exemplo, dobrar papel. Apresentam-se os modelos que se copiou e de onde se aprendeu. Presta-se-lhes rever\u00eancia, s\u00e3o rel\u00edquias, como se diz dos dedos mirrados dos santos. S\u00e3o provas de que esse outro mundo realmente existiu. Sustentam-se da mem\u00f3ria, como as cren\u00e7as, e tanta que se guarda nos dedos, de aprender por ver fazer. Os olhos e os dedos s\u00e3o as primeiras ferramentas da mem\u00f3ria. N\u00e3o \u00e9 nosso, \u00e9 patrim\u00f3nio. Ensina-se. 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